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Memória

A maior dor da imigração não é mudar de endereço

Por Samira Hauache · · 6 min de leitura · 25

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A maior dor da imigração não é mudar de endereço
A Maior Dor da Imigração Não É Mudar de Endereço — É Perder a Si Mesma

Todo mundo fala sobre a coragem de emigrar. Quase ninguém fala sobre o que essa coragem custa. Quando desembarquei na China, eu não estava só trocando de país. Eu estava perdendo, por um tempo, tudo aquilo que me definia.

Se você já morou longe, ou pensa em morar, essa página talvez explique uma dor que você nunca soube nomear.

Do dia para a noite, eu virei analfabeta

Eu era a Samira que resolvia qualquer problema. E de repente eu não conseguia ler uma placa na rua. Não entendia uma receita médica. Não sabia pedir ajuda. Não conseguia explicar uma emergência.

Coisas simples viraram enormes.

E é estranho perceber que inteligência, experiência e profissão não significam quase nada quando você não consegue nem ler o que está escrito na esquina.

Foi ali que descobri a maior dor da imigração: não é mudar de endereço, é perder a autonomia. É acordar num lugar onde tudo o que fazia de você uma adulta capaz simplesmente deixou de funcionar.

Cheguei com três filhos e um calendário impossível

Eu tinha três filhos pequenos. A caçula, três meses. O do meio, dois anos. O mais velho, onze.

Enquanto eles aprendiam um idioma novo, uma escola nova, uma cultura nova, eu aprendia outra coisa: a sobreviver.

A vacinação da minha bebê foi um dos primeiros muros. Algumas vacinas simplesmente não existem na China, e eu precisava seguir dois calendários ao mesmo tempo — o brasileiro e o chinês. Em algumas ocasiões, peguei um voo até Hong Kong só para imunizá-la e voltar no mesmo dia. Coisas que no Brasil eram um posto de saúde na esquina viravam operações inteiras.

Meu filho tinha asma, e ali descobri outra realidade: na China quase não existe o hábito de ter nebulizador em casa. Quando ele precisava, era ir ao hospital de três em três horas — até eu conseguir trazer uma máquina do Brasil.

Foi assim que entendi que saúde também tem sotaque. Cada país cuida das pessoas de um jeito.

A medicina que me desconstruiu

A medicina chinesa mexeu com tudo o que eu achava que sabia. Eles enxergam o corpo como consequência da mente. Para eles, emoção mal resolvida adoece o organismo, e o excesso de estresse desequilibra o corpo inteiro.

Vida mais equilibrada, alimentação mais natural, ervas medicinais, controle emocional. Vi gente tomando água quente todos os dias — no começo achei o hábito mais estranho do mundo. Depois entendi que existia uma filosofia inteira por trás daquilo.

Nem tudo eu trouxe para a minha vida. Mas muita coisa eu não consegui mais esquecer.

Meu corpo aprendendo a viver com menos

A cidade onde a gente morava fica a sete mil pés de altitude. Nos primeiros meses eu tinha dor de cabeça constante, cansaço, falta de ar. Era como fumar dois maços de cigarro por dia, de tão rarefeito que o oxigênio era ali em cima.

Demorei meses para entender que agora eu viveria com menos oxigênio, literalmente. Minha imunidade despencou. Vieram as viroses. E vieram os medos.

Porque existe um pensamento que acompanha quase toda mãe imigrante: eu não posso adoecer. Não por força — mas porque não havia ninguém para cuidar dos meus filhos se eu caísse de cama. Meu marido, piloto, passava dias fora. A maior parte recaía sobre mim.

Foi nesse silêncio que aprendi a diferença entre estar sozinha e transformar a própria alma num lugar seguro.

O normal depende só de onde você nasceu

A cultura me desafiava todo dia. Os banheiros eram outra lógica. Os mercados pareciam outro planeta — os alimentos não vinham embalados, vinham vivos. Peixes, lagostas, camarões, coelhos, rãs, galinhas, cobras. Tudo fresco, tudo abatido na hora. O cheiro forte, as penas, as vísceras, as moscas.

Para mim era choque. Para eles, era sinônimo de qualidade e comida saudável.

E ali eu entendi uma das maiores lições da vida: o normal depende apenas do lugar onde você nasceu.

Vi grilos vendidos como bichinho de estimação na porta das escolas, em gaiolinhas. Tartaruguinhas presas dentro de chaveiros de bolinha transparente. Hábitos que me chocavam, mas que eram só o cotidiano de outra gente. Arrotar durante a refeição era elogio ao cozinheiro. Cuspir no chão era considerado mais saudável do que engolir.

Tudo aquilo me estranhava — até eu perceber que eles olhavam para mim com a mesma curiosidade. Afinal, a estrangeira ali era eu.

Talvez essa seja outra grande lição da imigração: você deixa de ser a referência e passa a ser o diferente.

Amizade que se constrói devagar

Os chineses são reservados. Demoram para confiar. Mas quando abrem o coração, confiam de olhos fechados e viram amigos de verdade. Só que isso leva tempo. Um tempo de construção.

Enquanto isso, eu precisava trabalhar. Então me reinventei: virei professora substituta na escola internacional onde meus filhos estudavam.

Porque emigrar também é isso — aceitar que muitas vezes você precisa deixar para trás a profissão que levou anos construindo, só para sobreviver enquanto ergue outra. E isso não diminui ninguém. Pelo contrário. Fortalece.

Sete anos e meio depois, era casa

Depois de sete anos e seis meses vivendo lá, já não éramos turistas. Já nos sentíamos em casa.

E foi justamente aí que a vida resolveu mudar tudo de novo. No fim de 2019, começaram a surgir as primeiras notícias de um vírus. A gente ainda não sabia — mas estava prestes a viver, do epicentro, uma das maiores crises da história da humanidade.

Isso fica para a próxima página.

As duas malas de todo imigrante

Porque toda imigração tem duas malas.

A primeira pesa vinte e três quilos. A segunda não tem limite de peso — é nela que a gente carrega os medos, a fé, a saudade, a identidade, os sonhos. E é justamente essa mala invisível que transforma um estrangeiro em alguém completamente novo.

Que as borboletas nunca morram antes do tempo.

A China por dentro — o epicentro da pandemia vem no próximo vídeo

Aqui coube o começo da travessia. No vídeo cabe o rosto, a voz, o peso real de cada uma dessas histórias — as coisas que texto nenhum alcança. Se você reconheceu a sua própria mala invisível em algum trecho, é lá que a jornada continua.


Algumas pessoas passam. Outras ficam. As certas sabem.

🎬 Assista ao vídeo sobre este tema

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Samira Hauache
Samira Hauache

Autora de “Antes que morram as borboletas”. Escrevo sobre propósito, memória e a metamorfose da alma.

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