O maior acidente da minha vida não foi o de avião | Samira Hauache
Por Samira Hauache · · 6 min de leitura · 88

Por muito tempo, achei que a pior coisa que já tinha me acontecido tinha barulho de motor, cheiro de combustível e a altitude caindo pela janela. Eu estava errada. O maior acidente da minha vida aconteceu em silêncio — e foi escrever que me tirou dos escombros.
Se você chegou até aqui, talvez esteja carregando alguma coisa que nunca coube em palavras. Fica um minuto comigo.
O acidente que ninguém viu
O acidente de avião eu sobrevivi. Pouso de barriga, sem trem de pouso, o silêncio de morte na cabine antes do impacto. Eu era comissária. Fui treinada para aquilo. Puxei a alavanca, lancei a janela, comandei a evacuação. Todo mundo saiu. A dor só chegou depois, quando a adrenalina baixou e eu senti o sangue quente escorrer do couro cabeludo.
Aquilo teve testemunhas. Teve investigação, depoimento, manchete.
O outro acidente — o que quase me levou de verdade — não teve nada disso.
Ele aconteceu na Tailândia, durante a pandemia. Meu marido preso na China por causa do lockdown, eu sozinha com meus filhos num país que eu mal conhecia. O mundo inteiro tinha parado e ninguém sabia por quanto tempo. Perdemos a renda. Perdemos os planos. E, aos poucos, sem que ninguém percebesse, eu fui perdendo a mim mesma.
O caminho da escola e os canais de água
Existe uma parte dessa história que eu nunca imaginei dizer em voz alta.
Todos os dias eu levava meus filhos para a escola. E no caminho, passando pelos canais de água daquela cidade, eu olhava para eles e pensava em qual deles eu atiraria o meu carro.
Escrevo isso e ainda sinto o corpo travar. Mas é verdade. E preciso que seja dito, porque talvez você já tenha olhado para uma janela, uma estrada, uma água parada, e pensado a mesma coisa que ninguém deveria pensar sozinha.
Se você está aí agora, no fundo do poço, não leia isso como conteúdo. Leia como alguém estendendo a mão. No Brasil, o CVV atende no 188, de graça, 24 horas, em sigilo. Você não precisa carregar isso calada.
Foi exatamente quando eu cheguei ao fundo que aconteceu a coisa que mudou tudo.
Eu comecei a escrever — não para publicar, para sobreviver
Não peguei o caderno porque queria virar escritora. Não escrevi porque sonhava com um livro na livraria. Eu escrevi porque precisava sobreviver àquele dia, e depois ao seguinte.
E o que ninguém me contou é que a escrita não é enfeite. A ciência já sabe disso há décadas: colocar no papel as memórias que a gente mais tenta esconder reduz o peso delas. O trauma, dividido em pequenas linhas, para de parecer grande demais para caber num corpo só. James Pennebaker, pesquisador que dedicou a carreira a isso, descobriu que quem escreve sobre as próprias feridas fica, com o tempo, mais leve — às vezes até mais saudável.
Comigo foi assim, mas não foi bonito. Cada página era uma lágrima saindo do corpo. Cada capítulo me obrigava a revisitar lembranças que eu tinha passado a vida inteira tentando enterrar.
E foi escrevendo que eu descobri a verdade mais dura de todas.
A verdade que apareceu no meio das páginas
O maior desastre da minha vida não foi o acidente de avião.
Foi ter vivido tanto tempo sem saber quem eu realmente era.
Eu precisava fazer uma faxina dentro de mim. Precisava aceitar a minha história. Precisava separar o que era meu de tudo aquilo que eu só tinha aprendido a repetir — as crenças herdadas, as dores que não nasceram comigo mas que eu carregava como se fossem. Precisava deixar de apenas sobreviver para, finalmente, viver.
Quando terminei o livro, eu o escondi. Por quatro anos, ninguém pôde ler.
Por que escondi o livro por quatro anos
Deixar alguém ler aquilo era como entregar a chave da minha alma a um desconhecido. Era permitir que atravessassem todas as minhas camadas e me vissem sem proteção, sem máscara. Como abrir a placa-mãe da própria vida para qualquer um mexer.
Então guardei.
Até o dia em que entendi uma coisa que virou tudo do avesso: talvez essa história não tivesse sido escrita só para mim. Talvez existisse alguém, em algum canto do mundo, precisando exatamente daquelas palavras para continuar viva mais um dia.
Foi assim que nasceu Antes que morram as borboletas.
O que as borboletas têm a ver com tudo isso
A borboleta é aquilo que é frágil, belo e urgente ao mesmo tempo. A vida que insiste em resistir antes que seja tarde demais.
Este espaço não existe para falar de um livro. Existe para conversar sobre as coisas que quase não têm nome: cura, coragem, propósito, identidade. E sobre como, às vezes, a maior transformação começa exatamente no lugar onde a gente jurava que tudo tinha acabado.
Não vim ensinar nada a ninguém. Não tenho fórmula, não tenho passo a passo, não tenho o mapa. Tenho a minha travessia. E ela é sua também, se você quiser.
Se essa história conseguir impedir que uma única borboleta morra antes do tempo, todo esse caminho já terá valido a pena.
Enquanto houver uma borboleta voando, ainda existe esperança.
A história inteira eu contei em vídeo
Aqui couberam as cicatrizes. No vídeo cabe o rosto, a voz, as pausas — as coisas que texto nenhum alcança. Se alguma parte disso mexeu com você, é lá que a travessia continua.
Algumas pessoas passam. Outras ficam. As certas sabem.
Este texto trata de temas sensíveis, incluindo sofrimento psíquico. Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil, procure apoio: o CVV atende gratuitamente pelo 188, por chat e por e-mail, 24 horas por dia, em todo o Brasil.


