Eu vi a pandemia antes de o mundo acreditar nela
Por Samira Hauache · · 4 min de leitura · 11

Existe uma frase que nunca mais saiu da minha cabeça: eu vi a pandemia antes de o mundo acreditar nela. Eu estava na China, no país onde tudo começava, enquanto o resto do planeta ainda caminhava pelas ruas como se nada estivesse acontecendo.
Se você viveu 2020 do lado de fora, essa página vai te mostrar como era estar do lado de dentro.
O maior medo não era o vírus
Quando tudo começou, ninguém entendia exatamente o que estava acontecendo. As informações mudavam a cada semana. Primeiro falava-se de uma pneumonia de causa desconhecida. Depois vinham nomes novos, classificações novas, descobertas novas sobre aquele vírus. E cada informação nova provava a mesma coisa: a gente ainda sabia muito pouco.
Talvez esse tenha sido o maior medo de todos. Não era só o vírus. Era a incerteza.
Eu estava na China. E, pouco a pouco, vi as ruas esvaziarem. As escolas fecharem. As empresas pararem. As fábricas diminuírem o ritmo.
Era impossível não pensar na dimensão daquilo. A China produz boa parte do que abastece o mundo inteiro. Se a China parasse, o mundo sentiria. E naquele momento ninguém imaginava o tamanho do que estava por vir.
A decisão mais difícil: ir embora
Enquanto as notícias mudavam todo dia, começavam a surgir também os alertas de profissionais de saúde sobre a gravidade da doença. Muita informação circulando ao mesmo tempo — algumas confirmadas depois, outras ainda em discussão. Para quem estava vivendo aquilo por dentro, era difícil saber no que acreditar.
Eu sabia de uma coisa só: eu precisava proteger meus filhos.
Meu filho do meio tem asma. E naquele momento, problema respiratório era considerado um dos maiores fatores de risco. Foi aí que tomei uma das decisões mais difíceis da minha vida: ir embora.
Eu fui uma das últimas brasileiras a conseguir deixar a China. Vinte e quatro horas depois do meu embarque, os aeroportos já estavam fechados. Quando entrei naquele avião, eu ainda não sabia que estava assistindo ao fim de uma era.
Dois planetas na mesma viagem
Durante a viagem, o contraste era assustador.
Em Hong Kong, em Dubai, as máscaras já estavam nos rostos. Olhares desconfiados. Silêncio. Medo. Era como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respiração.
Mas quando desembarquei no Brasil, parecia outro planeta. As pessoas caminhavam normalmente. Os restaurantes funcionavam. As ruas estavam cheias. A vida seguia como se nada estivesse acontecendo.
E eu me perguntava, quase sem acreditar: será que eles ainda não sabem o que está vindo?
Poucas semanas depois, o mundo inteiro descobriu. Vieram os lockdowns. As fronteiras fechando. As escolas fechando. As empresas fechando. Os hospitais lutando, faltando equipamento, faltando profissional. Milhões de famílias passaram a conviver com o medo todos os dias.
O planeta inteiro parou. E ninguém saiu igual daquela experiência.
Quando a rota virou uma armadilha
Passei um período no Brasil. Até que, em agosto de 2020, meu marido foi chamado para retornar ao trabalho na China. A gente acreditava que em pouco tempo estaríamos vivendo como família de novo.
Em dezembro daquele ano, embarquei com meus filhos para encontrá-lo. Nossa rota passava pela Tailândia.
E foi ali que tudo mudou mais uma vez.
Enquanto esperávamos a autorização para seguir viagem, as fronteiras com a China fecharam. Os dias viraram semanas. As semanas viraram meses. E os meses viraram quase três anos.
Ficamos presos num país que nunca tinha feito parte dos nossos planos. Sem saber quando a fronteira abriria. Sem saber quando voltaríamos a estar juntos como família.
A verdade que a Tailândia me ensinou
Foi ali que descobri outra verdade sobre imigração: às vezes não é você quem escolhe um novo país. É ele quem escolhe você.
E foi na Tailândia que a vida me obrigou, mais uma vez, a renascer.
Mas essa é a próxima página desta história.
Porque algumas fronteiras são fechadas por governos. Outras se abrem dentro da gente.
Que as borboletas nunca morram antes do tempo.
O epicentro, a fuga, os quase três anos presa — está tudo no vídeo
Aqui coube o relato. No vídeo cabe o rosto, a voz, o peso de quem viu de dentro o que o mundo só entenderia semanas depois — as coisas que texto nenhum alcança. Se essa história prendeu você, é lá que o próximo capítulo se abre.
Algumas pessoas passam. Outras ficam. As certas sabem.


